Olá pessoas queridas,
Segue aqui uma partilha muuuito especial sobre experiência que tive recentemente com crianças de 3 a 6 anos.
Contexto: fiz uma semana de estágio numa escola aqui de BH chamada Pólen (da Pedagogia Waldorf).
Em essência, num Jardim de Infância Waldorf, as crianças tem um ritmo diário de atividades para formarem hábitos saudáveis e desenvolverem-se plenamente.
O maior tempo é dedicado para brincarem livremente (dentro e fora de sala, em contato com a Natureza).
E nesse brincar livre, sob o olhar atento e amoroso das educadoras, elas desenvolvem todo seu potencial, como:
imaginação, potencial criativo, relações uns com os outros, com todas as nuances de uma amizade verdadeira:
afeto, conversas, invenção de brincadeiras, e também conflitos, intrigas e suas soluções.
Quero relatar duas experiências que muito me ensinaram. No Jardim Waldorf prevalece sempre a alegria e a liberdade para a criança ser criança.
Mas ambas experiências têm a ver com algo não tão alegre, mas bem comum nessa idade: uma criança machucar a outra,
seja com objetos ou com pequenas agressões físicas.
Mas ambas experiências têm a ver com algo não tão alegre, mas bem comum nessa idade: uma criança machucar a outra,
seja com objetos ou com pequenas agressões físicas.
(Obs. Usarei nomes fictícios para não expor ninguém)
A primeira foi quando Vitor(6 anos) deu um forte soco nas costas de Gabriel (5 anos), e este começou a chorar.
Na mesma hora a profa chegou perto (na minha cabeça a intervenção seria aquela básica:
“Vitor pede desculpa pro coleguinha. E Gabriel, pára de chorar que nem doeu tanto assim, vai passar logo”),
mas foi um pouco diferente:
Na mesma hora a profa chegou perto (na minha cabeça a intervenção seria aquela básica:
“Vitor pede desculpa pro coleguinha. E Gabriel, pára de chorar que nem doeu tanto assim, vai passar logo”),
mas foi um pouco diferente:
Profa. (brava e amorosa) - “Vitor, muito feio o que você fez! E Gabriel pode chorar,
e chora muito, e bem alto porque deve estar doendo bastante”.
e chora muito, e bem alto porque deve estar doendo bastante”.
E ela pôs o Vitor pra ficar perto, assistindo o choro do Gabriel.
A pancada de fato foi forte. Mas passou 1 minuto, e Gabriel naturalmente parou de chorar.
E Vitor, envergonhado, pediu desculpas.
A pancada de fato foi forte. Mas passou 1 minuto, e Gabriel naturalmente parou de chorar.
E Vitor, envergonhado, pediu desculpas.
Na segunda cena, Carlinho (4 anos) pegou o cabelo de Luana (6 anos) e puxou muuuito forte. Ela desabou a chorar.
A Professora chegou perto e, sem motivo aparente, Carlinho também abriu o berreiro.
A sala, que tinha criança brincando em vários cantos, parou para olhar pra cena.
A professora, em silêncio, pegou firme os 2 pelo braço, levou-os até a porta e disse:
“Vão os dois lá pra fora, e só podem voltar depois que terminarem de chorar”.
Eu, que estava de observador (e aprendiz), resolvi me esconder e ficar observando as duas crianças.
A situação parecia grave, não era a primeira vez que acontecia aquele conflito. O puxão, eu vi, foi muito forte,
o choro dos dois estava bem alto, daqueles que duram muito tempo pra acabar. E um bem perto do outro, com aquele clima de inimigos.
A Professora chegou perto e, sem motivo aparente, Carlinho também abriu o berreiro.
A sala, que tinha criança brincando em vários cantos, parou para olhar pra cena.
A professora, em silêncio, pegou firme os 2 pelo braço, levou-os até a porta e disse:
“Vão os dois lá pra fora, e só podem voltar depois que terminarem de chorar”.
Eu, que estava de observador (e aprendiz), resolvi me esconder e ficar observando as duas crianças.
A situação parecia grave, não era a primeira vez que acontecia aquele conflito. O puxão, eu vi, foi muito forte,
o choro dos dois estava bem alto, daqueles que duram muito tempo pra acabar. E um bem perto do outro, com aquele clima de inimigos.
Pensei: “Ih, dessa vez vai levar uma semana para fazerem as pazes”. Devagarinho, uns 2 minutos, o choro foi cessando,
cada um enxugando as próprias lágrimas com a manga da camisa. Aí pensei: “Agora cada um volta pra sala, senta longe do outro e pronto”.
cada um enxugando as próprias lágrimas com a manga da camisa. Aí pensei: “Agora cada um volta pra sala, senta longe do outro e pronto”.
Nada disso, devagarinho, com muito carinho, Luana (que era mais alta) ficou de frente pro Carlinho,
colocou seus dois braços nos ombros dele e falou, bem baixinho: “O Carlinho, não precisa fazer assim comigo, eu brinco com você também”.
Ele, meio envergonhado, olhar pra baixo e com bico grande: “Tá bom, diculpa”...
e em silencio se deram-se um abraço... e voltaram de mãos dadas para a sala.
colocou seus dois braços nos ombros dele e falou, bem baixinho: “O Carlinho, não precisa fazer assim comigo, eu brinco com você também”.
Ele, meio envergonhado, olhar pra baixo e com bico grande: “Tá bom, diculpa”...
e em silencio se deram-se um abraço... e voltaram de mãos dadas para a sala.
Olha, confesso que dessa vez, eu que chorei... era uma mistura de ternura, gratidão por presenciar aquilo
e também de vergonha (acho que por ser adulto).
e também de vergonha (acho que por ser adulto).
Tocou fundo em mim a honestidade daquelas crianças em chorarem (porque quando dói a gente chora mesmo, oras) e,
com a mesma naturalidade, se perdoarem (porque quando é amigo, a gente perdoa mesmo).
com a mesma naturalidade, se perdoarem (porque quando é amigo, a gente perdoa mesmo).
Depois fui falar com a professora, sobre os dois casos, dizendo o quanto foi libertador pra mim ouvir dela:
“Pode chorar, e bem alto, porque tá doendo”. Ela sorriu, e acrescentou:
“E é fundamental a criança que machucou ouvir o choro da outra, bem de perto...
“Pode chorar, e bem alto, porque tá doendo”. Ela sorriu, e acrescentou:
“E é fundamental a criança que machucou ouvir o choro da outra, bem de perto...
é assim que elas conseguem reconhecer a dor, e aprendem a não machucar”
E foi isso, ou É isso...
Grato, infinitamente, por essas professoras (a grande e as pequenas),
e também pela escuta do coração de vocês.
e também pela escuta do coração de vocês.
Que todas as crianças tenham o direito de chorar (inclusive as nossas...
Nuno Arcanjo